Storieson2wheels

26 - Marrocos - 25/04 a 03/05

uma imersão profunda na cultura vibrante e nas paisagens áridas deste reino milenar.

Sejam bem vindos a mais uma aventura StoriesOn2Wheels por terras Marroquinas. Esta viagem teve uma série de peripécias desde o primeiro dia até ao ultimo .. enfim Marocos é mesmo assim.

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Dia 00 - Porquê dia 00 ora bem .. Sexta feira dia 24/04 de manhã começou um burburinho no grupo de WhatsApp que criamos para este tour .. toda a gente queria zarpar ainda na sexta dia 24/04 em vez de 25/04 de madrugada conforme planeado. Bem pela fresca começamos as diligencias para apurar qual seria a hora possível para arrancar e se havia alojamento algures depois de Sevilha para ficarmos.
Com hora e alojamento marcado encontramo-nos na estação de serviço de Olhão na A22 para oficialmente darmos início antecipado ao tour Marrocos 2026.
Nada de especial aconteceu até ao alojamento, autoestrada e mais autoestrada tendo o grupo sido abençoado com uma chuvinha a cerca de 30 km do destino marcado para pernoitar.
Não foi uma noite muito descansada, os quartos eram minúsculos e estavam infestados de mosquitos, enfim, valeu pelas tostadas com azeite e tomate à espanhola ao raiar do dia seguinte.

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Dia 01 - Esperavam-nos pouco menos de 200 km até Tarifa onde iríamos apanhar o barco rumo ao reino de Marrocos. No Porto encontramos mais uns grupos de motards (não Marafados) que iriam fazer a travessia de ferry connosco. Depois das necessárias verificações tanto de bilhetes como de passaportes entramos no barco e oficializamos assim o início da aventura.
O canal estava calmo pelo que a travessia se fez pacificamente sem enjoos nem loiça partida (referência à viagem 24_Marrocos).
Do outro lado já em terras Marroquinas saímos do barco sem demoras de maior, trocamos euros por dirhams ainda no porto e compramos uns "sim cards" na tabacaria mais próxima.
Iniciamos o GPS e rumamos à primeira bomba de gasolina para abastecer as montadas que vinham já no "redline". Poucos km após a primeira paragem voltamos a parar, desta vez para abastecer os estomagos também eles no "redline".
No restaurante de beira de estrada, os noviços do grupo (Nuno A, Fabrício e Filipe) poderam contemplar não só um camelo (*) mas também um veículo de transporte animal bastante característico dos países africanos onde a criatividade e o engenho superam algumas das dificuldades do dia a dia.
De barriguinha composta seguimos viagem rumo a Sul. O alojamento ficava a cerca de 100 km a Sul de Chefchaouen no meio da serra.

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Quando finalmente deixamos a N2 (itenerario principal com imenso trânsito .. a evitar sempre que possivel) para trás e começamos a serpentear por entre montes e vales nas estradas mais secundárias, foi aí que pude dizer .. "Olá Marrocos, já tinha saudades".
A chegada ao alojamento foi sofrida, ainda estávamos relativamente longe e já quase não havia sol no horizonte. A cada km a estrada ia piorando tendo-se transformando em pista de terra batida a cerca de 20 km do destino.
O alojamento, um DAR (**) muito fofinho situava-se numa aldeia minúscula, pendurada numa encosta onde as vistas sobre vale eram de cortar a respiração. O dono, que nos recebeu de braços abertos falava inglês fluente, o que não e nada comum por estas bandas e que facilitou em muito a comunicação.
Depois do banho bem merecido foi-nos servido um magnífico jantar que contou com sopa de entrada, cuscuz com frango e vegetais como prato principal e fruta para sobremesa. 

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Dia 02 - O dia amanheceu soalheiro, sentia-se no ar uma paz imensa, não se ouvia barulho nenhum a não ser o da mãe Natureza.
O pequeno almoço tradicional Marroquino foi servido no terraço onde pudemos degustar as magníficas panquecas (Msemen ***) enquanto olhavamos para o vale a perder de vista.
Depois do pequeno almoço rapidamente arrumamos a tralha e fizemos-nos à estrada continuando o percurso para Sul que nem andorinhas no Outono.
No segundo dia iríamos cruzar o parque natural do Taza, zona que não me era totalmente desconhecido pois em 2024 já por lá tinha andado meio perdido (24_Marrocos).
Sabia de antemão que as estradas seriam exigentes ao nível da conducao e que as paisagens seriam de cortar a respiração pelo que entusiasmado era grande.
Volvidos alguns km numa pista de terra encontramos um obstáculo intransponivel, o primeiro desafio que Marrocos tinha preparado para os Marafados em 2026. O que deveria ser uma estrada era agora um mar de água, sem outra solução possível voltamos para trás e tentamos contornar o obstáculo sabendo que mais cedo ou mais tarde teríamos de atravessar para a outra margem do rio Oude Leben.

Depois de analisar o mapa no GPS encontramos rapidamente uma alternativa, uma estrada que iria atravessar o rio mais a frente, confiantes que deveria haver uma ponte seguimos viagem. Ainda nao tínhamos feito 10 km, fizemos a nossa estreia em passagens a vau, tivemos de atravessar um pequeno afluente do rio com cerca de 10 m e com um relativamente pouco caudal. Este primeiro obstáculo foi ultrapassado por todas as nossas motas e seus utilizadores com grande confiança e elegância.
Uns km mais à frente o asfalto desapareceu dando origem a mais um troço de terra batida (situação muito habitual em Marrocos) que nos encaminhou para o bendito rio e que desta vez tínhamos mesmo de atravessar pois não havia mais alternativas viáveis. Assim sendo e porque tinha mesmo de ser em conjunto começamos a pensar como é que havíamos de passar para a outra margem. Nesta zona o leito do rio era muito largo, o caudal dividia-se por 2 zonas deixando um espaco seco no meio. Ainda nós estávamos a pensar como iríamos atacar o problema já o Fabricio estava em cima da mota pronto a passar para o outro lado, tendo escolhido para atravessar a zona mais larga e com maior caudal. "Se cair ajudem-me a levantar" .. gritou ele .. e sem mais demoras deu gas a Africa Twin e lá foi ele sem dar tempo à malta para se posicionar. Tudo correu bem e em menos de 1 minuto estava do outro lado são e salvo.

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Eu e os restantes escolhemos uma zona onde o troço com agua era mais estreito mas que obrigava a rodar no leito semiseco uns metros no sentido montante para depois voltar a cruzar mais uma zona com agua tambem ela relativamente estreita e com pouco caudal. Todos achamos que esta seria a abordagem mais segura dada a nossa fraca experiência e o peso das motas. Assim sendo demos inicio ao atravessamento das motas. Dada a irregularidade e consistencia do terreno (pedras rodadas) todos a exceção do Filipe pediram para eu levar as motas para o outro lado o que eu como bom companheiro de viagem fiz depois de reclamar (obrigatorio dado o meu mau feitio) e negociar uns almoços.
Uns km mais a frente paramos numa pequena aldeia para almoçar e secar um pouco as botas. Gostava de saber o que terão os locais pensado ao ver 6 marmanjos a almoçarem descalsos com as meias e as botas a secar no passeio e em cima das motas .. enfim .. nunca saberemos.
Depois do almoço seguimos viagem, e que viagem, começamos a subir, subir até nao podermos mais tendo atingido os 3200 m de altitude onde rodamos numa pista ainda com neve na berma .. imperdível, sem palavras para descrever .. top top.
Terminamos casados mas animados mais um dia “On2wheels” num alojamento "very typical" onde o anfitrião nos fez sentir em casa sempre simpatico e atencioso e onde nos foi servido o merecido jantar.

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Dia 03 - O alojamento situava-se a cerca de 2000 m de altitude no meio da cordilheira do Atlas. Durante a noite fez frio pelo que tive de dormir enrrolado num cobertor. Já de manhã o despertar foi um exercício de resiliência não só pelo cansasso que já se começava a acumular mas tambem pela temperatura lá fora não ser de todo convidativa, contudo, o desconforto do frio matinal dissipou-se perante a imensidão da paisagem que nos aguardava. O pequeno almoço tradicional Marroquino não falhou, servido no jardim com vistas desafogadas sobre um vale .. estava delicioso.
Feitas as malas e as despedidas seguimos viagem com destino a Merzouga, um destino quase que obrigatório nas incursões por Marrocos.
Com o objetivo de chegar a Merzouga para ver o por do sol do alto das dunas do Er Chebi fomos galgando kms num ritmo tranquilo e descontraído de forma a podermos apreciar as vistas magníficas ao nosso redor. À medida que nos aproximávamos do nosso destino, a paisagem transformava-se drasticamente; o verde dos vales e as formações rochosas deram lugar a um horizonte vasto, onde o ocre da areia começou a dominar cada centímetro do terreno.

A cerca de meio caminho mais uma vez a estrada asfaltada em relativamente boas condições transformou-se numa pista de terra batida .. nesta altura todos pensamos .. "ok sempre é bom para desenjuar e variar" .. no entanto alguns kms mais a frente 

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encontramos aquilo que seria o maior desafio desta viagem .. um serro relativamente baixo que tinha de ser atravessado e onde o único caminho traçado estava deveras degradado, onde as pedras soltas abundavam e onde degraus esculpidos pelas intempéries obrigavam ao progresso lento das pesadas motos.
Para fazer cerca de 3 km levamos mais de 2 horas, durante as quais houve um pouco de tudo, desespero, desidratação, quedas, mas acima de tudo muito companheirismo, pelo que, assim, juntos, atravessamos o serro para o outro lado superando com sucesso um desafio que ficará para sempre marcado nas nossas memórias e tambem nas nossas motos .. 2-0 Marafados - Marrocos.
Devido ao atraso no percurso, quando chegamos a Merzouga já não tivemos tempo nem forças para pegarmos nos quads e escalar as dunas para ver o por do sol, em alternativa fomos diretos para a piscina onde boiamos durante alguns minutos na água gelada bastante propicia para aliviar as dores corporais causadas pelos últimos dias.
Uma vez que á volta do alojamento só havia areia e camelos optamos mais uma vez por jantar no Riad onde nos foram servidas 3 tagines, uma de frango com limão, outra de borrego e por último uma de vegetais. Tivemos direito a uma cervejinha e frutinha de sobremesa. Enquanto a noite caía sobre o deserto, a conversa fluiu entre risos e relatos das peripécias do dia, cada um partilhando a sua visão sobre o desafio que tínhamos acabado de superar “On2Wheels”. 

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Dia 04 - Merzouga, acordámos com o silencio da imensidão do deserto a entrar pela janela do quarto. Depois da rotina do costume dirigimo-nos para a sala de refeições onde tinhamos a nossa espera um buffet de pequeno almoço com o “melhor” que Marrocos tem para oferecer e onde não faltaram as benditas panquecas marroquinas “Msemen (***)”.
Carregadas as montadas e de barriga cheia era tempo de nos fazermos a estrada em direção a Zagora não sem antes passar em Merzouga no famoso portal para o deserto do Saara.
Começamos o dia com uma missão .. arranjar um mecanico que conseguisse reparar a fuga de oleo da moto do Agapito, fuga essa causada por uma queda no dia anterior, uma pedra malandra acertou em cheio na tampa das valvulas do boxer da 1200 GS furando a mesma.
Com a função temporária de “team” lider, conduzi (mal) a caravana até ao portal para o Deserto do Saara não sem antes me ter enganado um par de vezes no caminho. Fizemos uma rápida paragem numa oficina de motos que infelizmente não conseguiu resolver o problema mas deu uma boa dica de onde nos poderiamos dirigir para a necessária reparação.


Tiradas as fotos da praxe seguimos viagem em direção a Rissani onde na teoria iriamos conseguir resolver o problema da 1200 GS.
Depois de perguntar a um policia no meu melhor Françês onde poderíamos encontrar um mecanico apareceu do nada um gentil local que na sua bicicleta nos encaminhou e acompanhou até uma oficina. Já na oficina, sem demora um dos mecanicos analisou o problem durante uns bons 10 segundos tendo feito o diagnostico de imediato.
Puxa de um macaco levanta a moto, encosta-a a um bloco de madeira para esta não cair, limpa cuidadosamente a superficie e aplica uma massa bicomponente em abundancia por cima da tampa ferida da 1200 GS.
Não sei ao certo quanto tempo durou a operação mas foi rápido. Feitas as contas demos 50 Dirhams ao mecanico e prguntamos ao nosso gentil guia onde poderíamos beber um já merecido café. Seguimos mais uma vez a sua bicicleta e paramos num café junto do mercado onde nos foi servido um belo café expresso sempre acompanhado de uma garrafinha de água (tradição em Marrocos).
Depois do café seguimos viagem em direção a Oeste por uma estrada já conhecida da viagem de 2025 (25_Marrocos). No percurso paramos na “Gara Medouar” tambem conhecida por prisão Portuguesa (****) muito visitada e fotografada, sendo sempre um local a revisitar numa passagem por estas bandas.

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As estradas até Foum Zguid (pequena povoação depois de Zagora) onde iriamos dormir como sempre não desapontaram apesar de pouco desafiante, sem curvas, pedras ou rios para transpor as paisagens são sempre iconicas e merecedoras de apreciação.
Pelo caminho passamos em Zagora onde vindo no nada apareceu um local numa motoreta que gesticulava e gritava algo em mau Françes que eu só percebi ao fim de alguns metros. O “men” queria que o seguissemos para conhecer a sua oficina a famosa Garagem Iriki muito conhecida pelo pessoal do todo o terreno puro e duro .. tipo nós .. naaa.
Carinhosamente ofereceu chá e uns autocolantes enquanto mostrava a sua querida oficina repleta de autocolantes de clientes que por lá passaram. É claro que não podiamos passar sem deixar tambem um autocolante dos Marafados, teriamos tambem deixado um dos Stories mas aqui o tonto ainda não mandou fazer.
Depois de uma quase crise de falta de gasolina devido a esta estar esgotada na bomba onde paramos já na reserva a cerca de 15 km do destino resolvemos a situação numa outra praticamente colada ao alojamento onde iriamos ficar.
Já no alojamento instalamo-nos, demos um mergulho na piscina, falamos com a familia, jantamos, rimos um bocado e dormimos .. enfim o normal de um fim de dia bem passado “On2Wheels”.

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Dia 05 - Cada vez mais perto do Atlântico, continuamos a rumar a Oeste. O destino do dia, Guelmim está situado a cerca de 100 km da costa.
Acordamos para um dia solarengo, como tem sido constante nesta viagem, e dirigimo-nos para a sala de refeições do hotel para tomar o pequeno-almoço tipo buffet onde não falharam os clássicos.
Depois de toda a rotina que não vale a pena descrever saímos Marafados do alojamento prontos para mais um dia “On2Wheels”
Em Tissint paramos para café e tivemos a oportunidade de ver um veículo a abastecer um talho em plena luz do dia com cerca de 28º de temperatura .. uma motoreta de 3 rodas com caixa descarregava peças de carne vindas sabe-se lá de onde em plenas condições de higiene e conservação para abastecer o talho da aldeia .. top top.
Nova paragem estratégica em Ta-Ta para café, água e souvenires. O Filipe tinha dado instruções precisas aos organizadores .. “queria comprar um equipamento da seleção de Marrocos para o sobrinho” .. eu novamente como tour líder temporário “mirei” uma loja de beira de estrada com roupas penduradas e pensei .. “é aqui que vamos encontrar o equipamento” .. e assim foi .. não foi na primeira mas ao fim de duas ou três tentativas lá conseguimos o tão desejado equipamento.

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Teria sido um dia tranquilo se não fosse a falta de combustível que quase nos fez ficar na beira da estrada .. mais uma vez Marrocos no seu melhor. Todos os cinco tinham jerrycans, cinco sim, eu na GSA com 30 Lt não preciso uma vez que o depósito cheio consegue ter ainda mais capacidade do que os depósitos ditos normais mais o jerry-can de 5lt. Dos cinco só três é que tinham gasolina nos jerry-cans, gasolina essa que teve de ser partilhada entre as cinco motos, todas já na reserva. Fomos pelo menos a três supostas bombas que estavam assinaladas no mapa e/ou que tinham sido indicadas por locais, no entanto o que encontramos foi nada, ou seja, nada de bombas .. enfim, Marrocos.
Quando finalmente abastecemos numa bomba do século passado já estávamos todos (eu não estava ainda mas pouco faltava) na reserva outra vez .. foi por sorte e destino que não ficamos a pedir boleia na berma da estrada.
Depois deste “stress” começamos sempre a parar na primeira bomba que aparecesse ao fim de 150 km percorridos.
O alojamento do dia era, na teoria, o melhor do tour .. “Oasis Palm”, só o nome é imponente, tinha uma mega piscina e uns quartos enormes, só foi pena estar vento e frio, o que impediu a malta de usufruir em pleno das acomodações.
Para jantar resolvemos ir explorar a cidade de Guelmim a cerca de 3 km do hotel. .. posso dizer que foi uma boa experiência, não houve nenhum tipo de problema com as motas, comemos num tasco onde o atendimento foi top top como nunca vi na Europa.

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Dia 06 - Finalmente o cheiro a maresia pairava no ar, era finalmente o dia de chegar ao Atlântico. No melhor Hotel o pior pequeno-almoço .. até os clássicos marroquinos deixaram muito a desejar .. enfim não se pode ter tudo.
Saimos do Hotel, atravessamos a povoação de Guelmim e rumamos ao Atlântico por uma pista lindíssima, curva após curva, a brisa do mar intensificava-se no ar até que deixamos as curvas para trás e vislumbramos o mar no seu esplendor. O dia amanheceu tristonho, o Sol escondia-se por detrás das nuvens cinzentas, o que foi uma pena, pois um dia solarengo teria beneficiado o trajeto e a experiência teria sido ainda mais Top.
A meio do caminho, a GSA deixou-me preocupado; apareceu uma mensagem de alerta referente à suspensão e pediu gentilmente para me dirigir devagar ao concessionário mais próximo. “bem pensei eu, só faltam cerca de 2000 km até Portugal, o que será que pode correr mal?” .. enfim, depois da paragem na praia para ver as ondas e tirar umas “pics” a mensagem desapareceu até hoje, no entanto fiz a viagem toda de regresso sempre a pensar como e que me ia desenrrascar se a suspensão tivesse efetivamente um problema grave.
A incerteza tornou-se assim uma companheira silenciosa nas longas retas de asfalto, transformando cada vibração da moto num sinal de alarme.
Rumo a Norte, sempre junto à costa Atlântica, a paisagem era lindíssima, mas a minha atenção permanecia presa ao painel, à espera que aquele aviso pudesse regressar a qualquer momento.

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É nesta dualidade entre a beleza da estrada e o peso da apreensão que compreendemos a verdadeira essência da jornada não é apenas sobre chegar ao destino, mas sobre a capacidade de conviver com o inesperado .. é assim viajar por Marrocos sem assistência.
Um pouco mais à frente, o Fabricio achou por bem ir dar um mergulho pelo que paramos num restaurante à beira do areal para beber um chá de menta enquanto este se banhava.
O almoço foi top top, com “peixe fresco” (lula) e sabores locais que me ajudaram a esquecer, por breves instantes, o receio que me acompanhava desde a manhã.
A tarde foi tranquila, sem nenhum stress, até à chegada perto do alojamento do dia. A serenidade do entardecer trazia consigo a promessa de um descanso merecido, mas, não sem antes sermos alvo de mais peripécias típicas marroquinas .. o caminho que nos levaria ao alojamento, que ficava a cerca de 100 metros da estrada principal, tinha sido coberto com uma densa camada de calhau rolado que dificultava a progressão tranquila e serena das motas. Passa o Fabricio com a sua AfricaTwin e toda a mestria de muitos anos de experiencia “On2Wheels”, mantendo o equilíbrio necessário para não ver a roda dianteira ceder ao terreno traiçoeiro. Quando chegou a minha vez, um pouco apreensivo e após 2 tentativas falhadas para progredir tive de mudar a moto para o modo enduro uma vez que o controlo de tração estava louco e não deixava a moto arrancar. Com a nova configuração aplicada, a entrega de potência tornou-se mais controlada, permitindo que a roda traseira ganhasse a tração necessária para vencer o cascalho solto. Senti a mota ganhar vida sob o meu comando, vencendo finalmente a inércia daquele solo instável. 

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Já estacionado e pensando no pior regressei à estrada principal para ajudar os meus colegas de viagem, garantindo que ninguém ficasse para trás naquele troço mais exigente. Sem me dar tempo para chegar ao pé vejo o Ricardo a cair, ele para um lado e a moto para o outro, corro para acudir. O Ricardo este ano resolveu vestir-se a rigor de ponta a ponta com equipamento de topo da Alpinstars, equipamento esse que incluía um air bag. O air bag detetou e bem a queda, cumprindo assim a sua função, disparou milisegundos antes do Ricardo aterrar no chão. Contente por ele estar bem, ajudei-o a levantar a mota, e acabei por a trazer até ao alojamento. Passado o susto, diz-me o Ricardo .. “não disseste para dar gás” .. ao qual eu respondo .. “achas? quanto muito estava a dizer para esperares que te ia ajudar” .. enfim mal entendidos para tras das costas e já no refúgio, verificámos que os danos na mota eram só superficiais, alguns arranhões na carenagem, marcas de uma batalha vencida contra o terreno hostil e o cansaço de um dia inteiro “On2Wheels”.
Sem mais demoras, apressamo-nos a fazer o check-in e a subir para os quartos em busca do descanso merecido após as horas de tensão “On2Wheels”.
O jantar foi servido às 20 h na sala de refeições do “Riad” onde o aroma das especiarias locais preenchia o ambiente, criando uma atmosfera acolhedora que nos confortou o espírito. Comemos uns Couscus com frango, desta vez regados com uma cervejinha que nos soube pela vida. 

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Dia 07 - Continuamos rumando a Norte em direção a casa, infelizmente o tour de 2026 estava quase a acabar. O destino do dia seria uma pequena localidade chamada Ait Ourir a cerca de 40 km de Marrakech.
Durante a manhã voltamos a subir a altitudes grandiosas, chegando mesmo a atingir os 2200 metros (para comparação, fica a informação - Serra da Estrela em Portugal -1993 m). Quando se cruzam montes e vales fugindo dos itenerários principais, deparamo-nos com paisagens de uma beleza crua e inalterada, onde o tempo parece ter estagnado em perfeita harmonia com a natureza. As estradas sinuosas, ladeadas por encostas áridas e aldeias de pedra que parecem brotar da própria montanha, oferecem um cenário de tirar o fôlego a cada curva superada.
Subimos, descemos e voltamos a subir até ao Col du Tichka para depois voltar a descer. A estrada que fizemos da parte da tarde é já um itinerário turístico cheio de autocarros e grandes multidões, ou seja tudo o que normalmente tentamos evitar, mas que por vezes não é possível. Contudo, mesmo com o fluxo intenso de viajantes, a grandiosidade das formações rochosas impõe um respeito silencioso, capaz de apagar o ruído do mundo exterior.
Tirada a “pic” da praxe no Col du Tichika e depois de termos lidado com os vendedores que fazem pela vida naquele local, seguimos viagem, não sem antes nos depararmos com mais um potencial stress .. A moto do Fabricio tinha um objeto metálico espetado no pneu de trás. Decidimos seguir viagem deixando o objeto metálico intocado com esperança que este não tivesse perfurado a carcaça na totalidade e não desse origem a perda de pressão imediata.

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 Volvidos uns km, o Fabricio alertou o grupo que o pneu estava efetivamente a peder pressão pelo que a nossa prioridade passou a ser encontrar um local seguro para intervir. Na beira da estrada uns km mais à frente encontramos uma pequena oficina onde paramos para que um especialista Marroquino retirasse o objeto metálico e remendasse o pneu. Com mestria e engenho o local retirou o pneu da jante sem remover a roda da mota e colocou um remendo por dentro do mesmo, um remendo em vez dos tradicionais “plugs” que tínhamos no nosso arsenal e que teríamos de utilizar não fosse ter-nos aparecido o estabelecimento mesmo quando necessitamos.
Depois do furo reparado, seguimos viagem tranquilamente e sem sobresaltos até ao alojamento do dia, um pequeno DAR (**) bastante aconchegante numa localidade chamada Ait Ourir. Ao chegar perto do alojamento formou-se um receio de que a hospitalidade pudesse não ser tão acolhedora quanto as imagens prometiam, contudo, ao cruzarmos o limiar do portão de entrada parecia que estávamos a entrar numa outra dimenssão .. é como o ditado .. não se deve julgar o livro pela capa. Entramos num refúgio de serenidade onde a arquitetura tradicional marroquina nos abraçou com a sua elegância intemporal. O pátio interior, adornado com azulejos geométricos e uma fonte central que murmurava uma melodia suave, transportava-nos para um oásis de tranquilidade absoluta, contrastando de imediato com a agitação vibrante das ruas que tínhamos deixado para trás.
O jantar foi uma celebração autêntica dos sabores locais, uma experiência gastronómica que elevou os nossos sentidos com o aroma das especiarias e a frescura dos ingredientes colhidos na região. Depois da janta, xixi cama pois no dia seguinte tínhamos uma tirada dura de 500 km para fazer.

Dia 08 - Infelizmente estamos quase quase a ter de fazer a travessia de volta à Europa, o dia 8 foi horrível, tínhamos 500 km para fazer sempre em estrada, sendo muitas delas itinerários principais onde o trânsito e o perigo são uma constante.
Cada quilómetro parecia uma batalha contra a exaustão e o caos motorizado. As paisagens, essas eram e são sempre bonitas e cativantes, no entanto a tensão de conduzir sob o sol implacável e a incerteza constante de cada ultrapassagem transformavam a jornada num exercício de resiliência. À medida que a meta se aproximava, o cansaço físico dava lugar a uma reflexão profunda sobre a efemeridade das distâncias. A viagem não é apenas o caminho, mas o modo como deixamos que ele nos transforme.
Ansiando por um banho e pelo descanso merecido, chegamos ao alojamento em Alcácer-Quibir já quase de noite. O hotel era muito neutro, sendo o restaurante pouco tradicional, pelo que optámos por procurar um refúgio mais genuíno na cidade. Para não voltar a pegar nas motas pedimos um taxi na receção para nos levar ao coração da vila. O motorista não falava uma palavra de Francês ou qualquer outra língua sem ser Árabe pelo que confiamos cegamente nas instruções dadas pelo pessoal do Hotel antes da partida.

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Em cerca de 10 min, estávamos no centro da povoação, onde a azafama era muita, havia locais por todo o lado. Havia bancas montadas nas diversas ruas, bancas essas que vendiam de tudo um pouco, roupa, comida ou até mesmo grandes eletrodomésticos.
Depois de deambularmos pelas ruas movimentadas, absorvendo a energia vibrante daquele comércio autêntico, encontrámos finalmente um pequeno tasco que vendia o que pareciam ser umas sandes de kebab e que tinha uma fila apreciável de locais à espera. Convictos que seria a melhor aposta, através de linguagem gestual, o Filipe e o Agapito conseguiram pedir uma sandes para cada um, enquanto eu o Claudio e o Fabricio assegurávamos uma mesa e cadeiras para nos acomodarmos e desfrutarmos da refeição.
Mesmo junto ao restaurante das sandochas havia uma loja com doces tradicionais que exalava um aroma doce e convidativo, impossível de ignorar. Cientes da tentação, cedemos ao impulso e decidimos que, após o repasto, iríamos provar algumas daquelas iguarias açucaradas para encerrar a refeição com chave de ouro.
Depois de mais uma volta pelas ruas agora desertas, pois todos os comerciantes tinham já arrumado as tendas ou estavam em processo de, pelo que os locais, potenciais clientes, tinham também eles regressado às suas casas.
Não tínhamos como contactar os taxis a não ser através de uma chamada para o Hotel, chamada essa que foi surpreendentemente fácil e, passados alguns minutos, os taxis estavam no local combinado para nos levarem de volta ao Hotel encerrando assim mais um dia por terras Marroquinas. 

Dia 09 - O dia do adeus amanheceu com uma mistura de melancolia e gratidão. Enquanto as malas eram fechadas, a consciência de que a jornada chegava ao fim pesava tanto quanto a bagagem, mas o coração transbordava com a riqueza das memórias vividas. Cada detalhe, desde o aroma intenso das especiarias nos mercados até ao silêncio hipnótico do deserto ao entardecer, gravara-se para sempre na nossa memória. A viagem termina, mas a essência do que foi descoberto permanece, como uma bússola interna, guiando-nos para futuras explorações.
Deixamos Alcácer-Quibir rumo a Tanger Ville, onde o movimento frenético do porto e a brisa do Mediterrâneo nos acolheriam.
O trajeto foi autoestrada, pelo que não há muito a dizer. Já em Tanger, rapidamente seguimos até ao porto para recolher os bilhetes do ferry que nos levaria de volta ao continete europeu. Passado cerca de 2 horas, Já almoçados num snackbar perto do porto seguimos viagem em direção à zona de embarque, onde, após passar pelos vários controlos de segurança, aguardamos pacientemente o embarque no ferry que nos iria levar de volta à realidade do dia a dia em Portugal.
Em Espanha, depois de sairmos do porto foi sempre de punho trancado até casa; as saudades da família e do conforto do nosso lar falavam mais alto. A estrada estendia-se como uma fita interminável sob o crepúsculo, enquanto os quilómetros eram devorados pela ansiedade do reencontro. Cada curva superada trazia o alívio de encurtar a distância, cada quilómetro percorrido era um passo mais perto do calor de um abraço há muito esperado. O cansaço da viagem, que antes pesava, agora parecia dissipar-se perante a antecipação da chegada.
Stress em Jerez de La Frontera com trânsito quase parado na autoestrada, mais stress na passagem por Sevilha e também depois de Sevilha onde só se circulava numa faixa devido a não sei bem o quê, pois não conseguimos identificar a causa.
Paragem obrigatória para abastecer e fazer as despedidas antes de cruzar o Guadiana e entrar em Portugal.
Em relação ao grupo não podia ter sido melhor, um grupo unido e coeso que esteve sempre à altura na hora de ultrapassar os desafios que Marrocos tinha reservado para os Marafados deste ano .. da minha parte .. Obrigado pela companhia e até para o ano. 

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Consulta

* Sabemos que em Marrocos só há dromedários mas para efeitos criativos neste texto iremos continuar a mencionar os dromedários como camelos.
** DAR - Casa tradicional fechada ou com pátio aberto, idealmente desenhada para manter a privacidade familiar. São mais pequenas e, hoje em dia, muitas funcionam como pequenos hotéis ou alojamentos locais.
*** Msemen (ou Msemmen): Panqueca em camadas, folhada e levemente crocante, que pode ser consumida simples com mel e queijo ou recheada com carne e especiarias.
**** Gara Medouar: A "Prisão Portuguesa" nos arredores de Erfoud e Merzouga é um monumento natural e histórico conhecido como Gara Medouar (também chamado de "Cárcere Portuguesa"). Trata-se de uma impressionante formação rochosa em ferradura no Deserto Negro que serviu de fortaleza e foi imortalizada no filme Spectre (007)

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